23 de jul de 2017

[Conto] DYONELIO MACHADO – Ronda das gotas




                      – PEDRO LUSO DE CARVALHO


DYONELIO MACHADO nasceu em Quaraí, RS, em 1895, e faleceu em Porto Alegre, em 1985. Foi médico, escritor, músico e pintor. Passou a ser conhecido como escritor ao receber o Prêmio Machado de Assis, em 1935, pelo seu romance Os ratos, hoje um dos modernos clássicos da literatura brasileira. Depois publicou, entre outros: Um pobre homem, O louco de Cati, Os deuses econômicos, Prodígios, Sol subterrâneo, Desolação, Passos perdidos, Ele vem do fundão, Endiabrados, Nuanças.

Segue o conto Ronda das gotas de Dyonelio Machado (in Rodízio de contos. Org. por Arnaldo Campos, Charles Kiefer e Laury Maciel. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985, p. 46-48):


                                                 RONDA DAS GOSTAS
                                      
                                               -- DYONÉLIO MACHADO           

               

A pequenita foi, pé ante pé, até a porta que abria para o corredor. Estendeu um olhar longo para o fundo da casa, para se certificar de que não era observada, e voltou, tranquila, para o seu lugar, na sala da frente.

Subiu de novo à janela.

Era num primeiro andar.

Chovia.

Alice divertia-se vendo a chuva cair.

Bem à altura dos seus olhos, uns pingos grossos, redondos, deslizavam, suspensos dos cabos eletrolíticos que margeavam a rua num e noutro lado.

Vinham uns atrás dos outros. Aproveitavam um declive do fio, doce e curvo como um seio, e precipitavam-se, velozes, como se brincassem “de pegar”.

Alguns, pesados, destacavam-se, como grandes pérolas hialinas, antes de atingir o seu fim – que era a junção do arame que, à altura da sua porta, distribuía a energia elétrica à casa.

Os mais valentes, porém, triunfavam daquela distância. Às vezes, mesmo, dois ou três, retardados pelo aclive que agora o fio apresentava e que era necessário vencer, fundiam-se num só, que brilhava um momento, enorme, majestoso, e ruía, depois, pesadamente.

Como se vê, era assaz animado o espetáculo.

Ordinariamente, nem bem acompanhava até o termo do seu percurso essa gota, já outras muitas, cinco ou seis – uma multidão – despontavam à sua esquerda, pelo outro lado da janela – cujo retângulo cinzento, naquele dia triste de chuva, limitava o seu mundo visual.

Alice batia festivamente as palmas, quando os seus pingos chegavam ao fim de sua jornada e ficavam ainda luzindo, antes de se diluírem, aprisionados na malha tosca que a extremidade do fio de ligação fazia, ao enroscar-se no cabo principal.

Alice interessava-se particularmente pela sorte das pequeninas gotas, quando estas se precipitavam no espaço. A princípio era um simples intumescimento claro da massa escura do condutor. Depois, com a chegada de outras, maiores, iam crescendo, definindo-se, até tomar o vulto das demais e seguir-lhes o mesmo caminho, como quem diz o mesmo destino, despencando-se, finalmente, em meio do trajeto ou no seu fim, mas sempre despencando-se.

Para as crianças, como em geral para os simples e sábios, tudo tem vida. Para as crianças, especialmente, tudo possui uma expressão humana.

Para Alice, pois, os pingos menores eram crianças, como ela, e os pingos maiores – adultos – os pais. Certamente eram pais extremosos aquelas gotas grossas que vinham tomar nos seus braços fortes as gotas pequeninas, como que abandonadas, coitaditas, no meio da estrada fria...

Ao passar pela sua frente, Alice vaticinava, secretamente, o futuro de cada gota: esta chegará... esta não chegará... Dir-se-ia uma pequenina bruxa, postada no caminho da vida, a profetizar para uma humanidade também pequenina, mas igualmente atingida da incerteza e inconstância de nosso destino...

A representação repetia-se. Alice desejá-la-ia mais variada. Já a enfarava, pois.

Tinha, porém, uma outra curiosidade, agora. Superior ao prazer que lhe dava a passagem ininterrupta das gotas: era descobrir-lhes a origem!

Onde nasceriam? Longe dali? Na outra janela? – E Alice curvava tristemente a pequenina fronte ao peso desse grande mistério, como o homem igualmente, ante o tenebroso problema da sua própria origem...

Uma esperança, porém, atravessou-lhe o craniozinho esbraseado! Fez-se-lhe uma luz! Talvez fosse na casa vizinha! Cada casa possuía certamente as suas gotas, que nasciam e morriam dentro do espaço que vai de uma à outra! Era lógico! – E Alice da mesma forma que os homens, corria sofregamente atrás dos enganos da lógica, na necessidade de engendrar a unidade que não existe no universo, mas que constitui a única condição da sua explicação humana...

O seu objetivo agora era temerário. O banquinho sobre que se achava, e que constituíra até aí o seu posto rudimentar de observação, seria totalmente ineficaz para a acompanhar na arrojada empresa. Afastou-se, então, como quem ia munir-se de um aparelho mais adiantado. Voltou, pouco depois, com uma cadeira, enorme, de braços.

Fez a substituição e subiu.

Estendeu o olhar, com metade do corpo para fora.

Ela julgara que iria surpreender as gotas na sua origem definida e palpável: uma mão potente, depositando-as, facilmente, sobre o fio, já feitas, com vida e aquela sua forma, original e caprichosa.

Decepção!... Sobre o cabo, nada de extraordinário. As pequenas gotas de água pareciam surgir por si, no meio dum mistério, ao mesmo tempo simples e profundo, assegurando-se, bem assim, pelo esforço próprio, o estado esferoidal que as distinguia...

Igualmente, não tinham lugar certo para nascer. O fio, molhado em toda a sua extensão, parecia constituir a grande matriz, indiferentes das gotas da chuva, que se desatavam na sua superfície, como pequenos botões de flores, desabrochando ao longo dum galho nu.

E Alice pensou então que, de todo o espetáculo, desde a origem do pingo d’água, até o seu fim, só o que havia de claro e de certo – era a sua mensagem através do retângulo cinzento da janela. Era o seu fugitivo instante de vida...

– Minha filha! Dantas! Acudam!

Alice procurava voltar-se. Só então é que viu o perigo em que se encontrava, prestes também a desabar no abismo da rua.

O homem correu. Deitou-lhe um braço enérgico e amparador. Retirou-a muito pálida da janela, onde ela, pela primeira vez, se debruçara sobre o mistério da vida e da morte...

– Minha querida filha!... Que susto tu deste na tua mãe...



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13 de jun de 2017

DOROTHY PARKER – Uma entrevista




 – PEDRO LUSO DE CARVALHO

Dorothy Parker (Dorothy Rothschild, era o seu nome) nasceu em West End, New Jersey, em 1893. Em 1914, vendeu o seu primeiro poema para a revista Vanity Fair. Dois anos depois foi contratada pela revista Vogue; em 1917 passou a escrever crítica de teatro para Vanity Fair. Os seus contos passaram a ser publicados em 1925 pela The New Yorker, criada nesse ano; para essa mesma revista passou a escrever resenhas de livros em 1927. Dois anos depois ganhou o prêmio O. Henry pelo seu conto Big Blod, que a escritora incluiu nos seus livros de contos: After Such Pleasures (1933), Here Lies (1939) e Collected Stories (1942). Parker seguiu escrevendo contos, poemas e crítica, que foram publicados no seu país nos anos que se seguiram, sempre com grande sucesso, o que não ocorria com o que mais gostava, suas peças teatrais.
Dorothy Parker também escreveu roteiros para Hollywood, dentre eles a Star Is Born (Nasce uma Estrela), com indicação para o Oscar em 1937 (a escritora passou a detestar Hollywood, a ponto de recusar-se pronunciar esse nome, substituindo- por “lá”). A escritora foi amiga e também a contista preferida do erudito crítico literário norte-americano Edmund Wilson, autor de Axel's Castle (O Castelo de Axel).
Quando Dorothy Parker foi entrevistada pela The Paris Review, no pequeno quarto do hotel em que morava, no centro de Nova York, dentre as muitas perguntas, que lhe fez a entrevistadora da revista, uma foi se é vantagem a segurança econômica para o escritor; Parker respondeu-lhe:
"Sim. Ficar dura não faz bem nenhum, a menos que você seja uma espécie de Keats. Os que escreviam bem nos anos 20 tinham uma vida confortável. Quanto a mim, gostaria de ter dinheiro. E gostaria de ser uma boa escritora. Essas duas coisas podem se juntar, e espero que se juntem, mas, se for pedir demais, prefiro ter dinheiro. Odeio quase todos os ricos, mas acho que eu seria adorável. No momento, porém, gosto de pensar na observação de Maurice Baring: “Se você quer saber o que o Senhor pensa do dinheiro, terá apenas de olhar para aqueles a quem Ele o dá”. Sei que não ajuda muito quando o lobo bate na porta, mas é um consolo".
Dorothy Parker morreu de um ataque cardíaco no Hotel Volney, em Nova York, em 1967, aos 74 anos, deixando obras poéticas, contos e crítica literária da maior importância. No Brasil, foi publicado pela primeira vez o livro de contos Big loira e outras histórias de Nova York.
Edmund Wilson, ficcionista e crítico literário famoso, dizia sobre os contos da talentosa escritora da era do jazz dos anos 20 e 30: “Os contos de Dorothy Parker continuam hoje tão agudos e engraçados como na época em que foram escritos." E, para F. Scott Fitzgerald, Dorothy Parker era "A melhor escritora de sua geração."


REFERÊNCIA:
PLIMPTON. George. Escritoras e a arte da escrita. The, Paris Review. Tradução de Maria Ignez Duque Estrada. Rio de Janeiro: Gryphus, 2001, p. 86.





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14 de mai de 2017

DENIRA ROZÁRIO - Palavra de Poeta / Portugal




PEDRO LUSO DE CARVALHO

A jornalista brasileira Denira Rozário escreveu o livro Palavra de Poeta – Portugal, no qual reuniu entrevistas que realizou, em Portugal, com 24 dos maiores poetas portugueses contemporâneos (17 homens e 7 mulheres), e que resultou na notável antologia de sua criação publicada pela Civilização Brasileira, em 1994. Enio Silveira, responsável pela editora, lamentou o fato de Otto Lara Rezende, um dos maiores cronistas da literatura brasileira, ter nos deixado sem ver o livro publicado. Otto Lara já havia lido e apreciado o livro anterior de Denira Rozário, Palavra de Poeta – Brasil.
Mais adiante, Denira Rozário viria escrever Palavra de Poeta - Cabo Verde e Angola, livro no qual entrevista 12 poetas cabo-verdianos, entre eles, Aguinaldo Fonseca, João Melo e José Eduardo Agualusa, o último livro da trilogia, que visou a documentar o significado de ser poeta e de escrever poesia no Brasil, em Portugal e, depois, em Cabo Verde e Angola (Editora Bertrand Brasil).
Escreveu Antonio Houaiss, crítico, ensaísta, filólogo e integrante da Academia Brasileira de Letras, na nota introdutória da obra Palavra de Poeta – Portugal, em 26 de maio de 1993:
Este inquérito, valioso, é continuação necessária, do antecedente, feito junto a poetas brasileiros altamente representativos da nossa criatividade atual. Como contrapartida daquele, este abrange nomes muito atuais e atuantes do cenário poético português contemporâneo. Como era de esperar, dada a competência da inquiridora – versátil, informada, apaixonada da matéria, avessa `uniformização, descobridora das singularidades pessoais -, há aqui um quadro sincrônico soberbo: a mesma língua manejada segundo as variações temáticas que os tempos e este Tempo oferecem [...] preciosas amostragens poetadoras, poéticas e poetizantes [...]”.
Esse livro de Denira Rozário, Palavra de Poeta – Portugal, teve um tratamento esmerado, a partir da capa, para a qual Felipe Taborda utilizou serigrafia da autora, pelas as anotações sobre a obra escritas pelo editor Ênio Silveira, culto e exigente, passando pela ‘Palavra de Antonio Houaiss’ e culminando com as entrevistas feitas com os maiores poetas de hoje e breve antologia de seus poemas.
Foram entrevistados por Denira Rozário os seguintes poetas: António Gedeão, Sofia de Melo Breyner Andersen, Eugênio de Andrade, Egito Gonçalves, Natália Correia, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, Fernando Guimarães, Ana Hatherly, Maria Alberta Menéres Melo e Castro, Albano Martins, E. M. de Melo e Castro , António Asório, Pedro Tamen, Fiama Hasse Pais Brandão, Casimiro Brito, Al Berto, Nuno Judice, Rosa Alice Branco, José Jorge Letria, Luiz Miguel Nava, Fernando Pinto Amaral, Adília Lopes e Paulo Teixeira.
Escolhi alguns trechos da entrevista que Denira Rozário fez com Fernando Pinto Amaral (1960), escolha essa que fiz aleatoriamente: “Crítico notável, que se revela notável poeta [...], fez o curso inverso, primeiro o crítico depois o poeta, escolheu o caminho mais difícil, menos comum e de maior risco. Risco ocorreu também ao abandonar, no 4º ano, o curso de medicina, carreira considerada estável para estudar literatura. A vocação era poética, a poesia venceu [...] A vontade de escrever mais regularmente surgiu a partir de 17 anos, durante uma paixão – confessa uma tendência para amores impossíveis [...] Sobre ser poeta, cita Milan Kundera, “só o autêntico poeta sabe o que é o imenso desejo de deixar essa casa de espelhos onde reina um silêncio ensurdecedor”.
.Em outro trecho Rozário pergunta Fernando Pinto Amaral se seria difícil falar sobre a atual poesia portuguesa, e o poeta respondeu-lhe: “Por isso remeto para o meu ensaio o Mosaico Fluido – Modernidade e Pós-Modernidade na Poesia Portuguesa mais Recente, saiu pela Editora Assírio & Alvim”.
A seguir Rozário pede ao poeta, crítico e professor que diga quais são os bons poetas portugueses e brasileiros: “Quanto aos bons poetas portugueses que leio e que aprecio, são tantos que não vale a pena enumerá-los – teria medo de esquecer alguns. Em relação aos brasileiros, gosto de ler, por exemplo, Mário de Andrade, Jorge Lima, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Manoel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes. A poesia mais recente, é pena, conheço-a muito mal, pois chegam poucos livros”.
À pergunta da entrevistadora sobre sua condição de leitor, se é organizado, respondeu-lhe que “Como leitor, sou um tanto anárquico, não leio muitos livros nem gosto de devorá-los. Estou lendo poemas do sueco Tomas Transtromer, ensaios de Walter Benjamin e um livro de contos de Paul Bowles.”
E sobre exigir, a poesia, uma boa formação literária, disse que:
A questão é complexa, visto que, a meu ver, a inspiração poética em si mesma não exige qualquer formação. Sendo inata em algumas pessoas, ela brota espontaneamente e às vezes desde cedo, por exemplo, o caso de Rimbaud. Todavia, para que os resultados sejam bons, torna-se relativamente necessário uma consciência crítica que só aparece quando há certa bagagem cultural. Por isso, concordo que é exigível alguma formação literária, mais ou menos sólida ou fluida.”
Dentre os três poemas de Fernando J. B. Pinto do Amaral [nasceu em Lisboa, no dia 12 de maio de 1960], que integram a entrevista de Rozário, transcrevo uma delas:

Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.
muito longe, uma estrela.
Cruel foi sempre o seu fulgor:

sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.
Era esse o meu reino,
e era talvez essa
a voz da própria lua.



Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.

Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence
- nenhum gesto do céu ou da terra.

Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.



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10 de abr de 2017

MARIO VARGAS LLOSA – Quem Matou Palomino Molero?




PEDRO LUSO DE CARVALHO


MARIO VARGAS LLOSA escreveu o romance Quem Matou Palomino Molero? em 1986. Nesse mesmo ano o livro foi publicado no Brasil pela editora Francisco Alves, com a tradução de Remy Gorga Filho. Bella Jozef disse sobre essa obra: “O narrador traça o quadro deprimente de uma realidade com o problema da injustiça e estratificação das classes sociais que divide e separa também as etnias, alternando a geografia física e psicológica”.
A história contada por Vargas Llosa se passa nos anos cinquenta, tendo por personagens centrais os policiais: Tenente Silva e Lituma. Lituma encontrou o corpo de Palomino Molero enforcado na velha algarobeira, com sinais em seu corpo de atos de tortura, como é narrado no início da obra:
Antes e depois de matá-lo haviam cortado seu corpo em tiras com uma crueldade sem limites: tinha o nariz e a boca cortados, coágulos de sangue ressequido, equimoses, queimaduras de cigarro, e, como se não fosse bastante, Lituma compreendeu que também haviam tentado capá-lo, porque os ovos pendiam até a entreperna. Estava descalço, despido da cintura para baixo, com uma camiseta em pedaços. Era jovem, magro, moreninho e ossudo (...). – Quem fez isto – balbuciou, contendo a náusea”.
O crime, que foi cometido no pequeno povoado do Peru, Talara, onde se encontrava instalada a International Petroleum Company, com seus escritórios e as casas dos gringos, e a Base Aérea de Piura, deixou o guarda Lituma abatido por pressentir que o assassinato de Palomino Molero poderia representar uma ameaça para ele, caso algum peixe grande da Base Aérea estivesse envolvido no crime, como disse a um interlocutor seu: “- Mas não posso tirar o magrinho da cabeça. Tenho pesadelos, parece que estão arrancando os meus ovos como fizeram com ele. Coitadinho: morreu com ele pelos joelhos e achatados como ovos fritos”.
A partir daí o Tenente Silva e o seu subordinado Lituma passaram à fase de investigação da autoria do crime, andando praticamente no escuro à busca de suspeitos. Aos poucos começaram a aparecer aqui e ali alguns elementos que resultavam em indícios, até que passaram a suspeitar do Comandante da Base Aérea, o Coronel Mindreau. Este recebeu os policiais em seu gabinete, pela segunda vez: “- Em que posso servi-los? – murmurou com uma urbanidade que sua expressão glacial contradizia. – Aqui estamos outra vez pelo assassinato de Palomino Molero – respondeu o Tenente, com todo respeito. – Para solicitar sua colaboração, meu Coronel”.
A investigação prosseguia com seus percalços e temores, principalmente por parte do guarda Lituma. Passaram então a dar maior atenção ao suspeito principal, o Coronel Mindreau, depois que receberam uma denúncia anônima, acusando-o da autoria do crime. E, para surpresa dos policiais, estes descobriram que o bilhete com a denúncia foi escrito pela própria filha do Coronel, Alícia Mindreau, namorada de Palomino Molero, com quem fugira para casar-se. O casamento só não se consumou pela ação do Coronel Mindreau.
A investigação prosseguia tensa à vista dos riscos para o Tenente Silva e para o guarda Lituma: o suspeito era pessoa influente e capaz de atos violentos. O dia-a-dia dos policiais somente era amenizado com a presença Dona Adriana, casada com o pescador Moisés, homem bem mais velho que ela. O Tenente Silva não escondia que sentia uma forte atração física por essa mulher gorda e bem mais velha que ele. Lituma não compreendia esse sentimento; não entendia por que ela lhe dava tanto tesão: “- Se continuar olhando assim para Dona Adriana, seus olhos vão gastar, meu Tenente” – disse-lhe Lituma.
Fora esses momentos de descontração na pensão de Dona Adriana, o resto do tempo os dois policiais passavam envolvidos com a investigação. O Tenente Silva esforçava-se para descobrir o assassino de Palomino Molero, não que estivesse obcecado para que fosse feita a justiça, mas sim pela curiosidade que o perseguia; queria saber a todo custo quem matou Palomino Molero. O guarda Lituma admirava o estilo do Tenente Silva, que sabia como arrancar os segredos das pessoas. Quando foi procurado por Alícia Mindreau, numa tarde em que espiava com um binóculo Dona Adriana banhar-se num lago, essa qualidade foi posta à prova.
O tenente Silva nesse dia foi surpreendido pela filha do Coronel Mindreau quando se deliciava com a nudez de Dona Adriana. Lituma ouviu o Tenente dizer a Alícia: “- É perigoso surpreender assim uma autoridade em seu trabalho, senhorita. E se, de ricochete, pega um tiro? – Em seu trabalho? – desafiou-o ela, com uma gargalhada sarcástica. – Espiar mulheres que tomam banho é seu trabalho?”.
Nesse dia, a investigação dos dois policiais chegou ao paroxismo quando Alícia Mindreau acusou seu pai, o Coronel Mindreau, de ser o responsável pela morte de Palomino Monlero. No Posto da Guarda Civil, Alícia contou ao Tenente Silva a conversa que tivera com seu pai: ele a procurou meio louco de susto e arrependimento: “- Sou um assassino Alicinha. Torturei e matei o recruta com quem você fugiu”.
A partir dessa altura da investigação tudo indicava que nada mais restava para ser esclarecido, o que não significava que haveria condenação do Coronel Mindreau, depois da conclusão do inquérito policial, pelo Tenente Silva. Não ficaria a dúvida sobre a autoria do crime, mas ainda não estavam esclarecidas as circunstâncias de tal ato, e, tampouco, não se poderia prever o que viria ocorrer com o assassino de Palomino Molero, O Coronel Mindreau. Alícia teria falado a verdade sobre as relações sexuais que dizia ser obrigada a manter com seu pai, o Coronel Mindreau?
Por outro lado, o Coronel, pai de Alícia, teria falado a verdade quando negou ter forçado a filha a manter relações sexuais com ele por muitos anos? As afirmações que fizera eram verdadeiras? O certo é que, na praia onde se encontravam, o Coronel Mindreau confessou ter matado Palomino Molero. E que, depois da confissão, pediu que os policiais o deixassem ali. E que, após terem se afastado, ouviram um estampido que indicava tratar-se de um tiro.
O leitor verá que a história de Vargas Llosa não tem como único clímax a descoberta do assassino de Palomino Molero; o ápice da narrativa vem depois da confissão do Coronel Mindreau de ser ele o assassino. Portanto, o desfecho da história não está unicamente na descoberta da autoria do crime, mas também com o que ocorre com o assassino de Palomino Molero e com Alícia, filha do Coronel.
Espero não ter tirado a curiosidade do leitor sobre o desenlace completo dessa história, por ter revelado o nome do assassino, já que restou ser contado o que aconteceu com o Coronel e com sua filha Alícia. O certo, no entanto, é que Quem Matou Palomino Molero? está colocado entre os melhores romances de Mario Vargas Llosa, que a cada livro seu vem confirmar ser ele um dos escritores mais importante da literatura sul-americana.




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7 de mar de 2017

[Poesia] LUIZ DE MIRANDA – Breu das Almas




- PEDRO LUSO DE CARVALHO


LUIZ DE MIRANDA não é apenas um dos poetas gaúchos mais importantes; ele está colocado entre os melhores poetas modernos brasileiros e da América Latina.
Alguns dos poetas e críticos brasileiros mais representativos falam sobre a poesia de Luiz de Miranda (in Antologia de Poemas/Luiz de Miranda. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987), como veremos a seguir:
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: “Poesia aberta, comunicante, como um sopro de vida e insatisfação”.
FERREIRA GULLAR: “No caso de um poeta como Luiz de Miranda, as soluções formais resultam da necessidade de formular o vivido e sentido, emoções e ideias que são expressão de um compromisso claro com seu país e o seu tempo. A poesia de Luiz de Miranda fala de nós todos”.
RAUL BOPP: “A poesia de Luiz de Miranda revela a sensibilidade do verdadeiro e grande poeta. É uma contribuição definitiva à literatura brasileira”.
GUILHERMINO CÉSAR: “De qualquer modo, penso que Memorial assinala uma vertente; reúne-se ao que de melhor existe no Brasil”.
NELSON WERNECK SODRÉ: “Luiz de Miranda sabe que a solidão é provisória e decorre de derrota, exílio, distância, saudade. Escreveu longe e perto. Sua poesia se junta a de alguns, uns poucos, que souberam ver o que viu, sentir o que ele sentiu. A época, amarga e opaca e escura, é atravessada por essa poesia como um relâmpago. Sua luz denuncia auroras. Do provisório, entrevemos o definitivo”.
JOSÉ ÉDIL DE LIMA ALVES: “Poeta comprometido com a realidade do seu país e de seu continente, ele trilha os caminhos percorridos por um Pablo Neruda, um Atahualpa Yupanqui, um Ferreira Gullar, com seu canto enérgico de protesto”.
O poema Breu das Almas, de Luiz de Miranda, integra o livro Trilogia da Casa de Deus, Prêmio Nacional de Poesia 2001, da Academia Brasileira de Letras (In Trilogia da Casa de Deus./Luiz de Miranda. Porto Alegre: Sulina, 2002, p. 143-144); segue o poema Breu das Almas:


BREU DAS ALMAS
- LUIZ DE MIRANDA
a Vanja Orico


Em mim, o silêncio do mar,
pulsando a remota invernia,
somente descem a ampulheta dos dias,
frêmitos e de prata impura,
na vidraça onde morre o vento.

Por milhares de anos foi assim,
um balde de ternura ao fim
da borrasca, da solidão e do medo.
Em mim, morrem todos os segredos,
tombam as tempestades
cobertas de esquecimento.
Puída e cheia de pó,
a alma canta o que fui de menino
a se perder para sempre
no trevoso breu dos anos,
mas ainda à noite me alucino
na contemplação dos velhos retratos,
fechados a sete chaves no meu quarto.

Homero e Dante me consolam
no plenilúnio do paraíso.
A morte vem sem aviso,
tecendo os noturnos do adeus.

Ninguém me ama,
e tarda, tarda muito, amanhecer,
mas viver, como disse antes,
é ir com todos
sem nunca se perder.

Vou pelas vielas da minha pátria,
tão esquecida, miserável e humilhada
nos gabinetes do poder.
Pátria pobrinha da minha alma,
te canto sempre em tom maior.
Entre lendas e beijos,
te coloco ao pé dos santos,
para que envolvida pelos seus mantos
permaneças viva e intocada.
Pátria minha, sempre amada.

Em mim está bem desperto
o pólen, a pétala, a pérola
que descem comigo ao inferno,
e voltamos lúcidos à vida,
do breu das almas e do inverno.
Não haverá mais partida ou despedida.




Porto Alegre,
1º de setembro de 2000.




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28 de jan de 2017

Jorge Luis Borges visto por André Maurois





-- PEDRO LUSO DE CARVALHO

O último livro de André Maurois foi De Aragon a Montherlant. Estava escrito quando ele morreu, em outubro de 1967. Foi editado em Paris, após sua morte. A obra, que teve grande êxito nas livrarias, completa a trilogia dos dois primeiros volumes De Proust a Camus e De Gide a Sartre. A trilogia foi publicada no Brasil pela editora Nova Fronteira. De Aragon a Montherlant foi traduzido por Paulo Hecker Filho. Nesse terceiro volume, André Maurois estruturou o livro com ensaios curtos abrangendo temas variados, não mais se limitando a escrever sobre vida e obra dos maiores escritores franceses do século XX, como fizera nos dois primeiros tomos.
Nesse terceiro volume, André Maurois publicou ensaios da melhor qualidade sobre importantes escritores – não apenas franceses - , dentre eles, Borges, com o título Jorge Luis Borges - Labirintos. Aí, Maurois diz que Borges é um grande escritor, que se restringiu a pequenos ensaios. E acrescenta: "esses ensaios bastam para afirmá-lo “grande”; justificando o por quê dessa qualidade: “pelo brilho duma inteligência impressionante, a riqueza de invenção e o estilo cerrado, quase matemático”.
Prossegue Maurois:
Argentino de nascença e temperamento, mas nutrido de literatura universal. Borges não tem pátria espiritual. Cria, fora do espaço e do tempo, mundos imaginários e simbólicos. É um sinal da sua importância que só possa evocar a seu propósito obras estranhas e belas. Aparenta-se com Kafka, Poe, às vezes Wells, sempre Valéry pela brusca projeção de seus paradoxos dentro do que chamaram 'sua metafísica privada.
Adiante, André Maurois diz que são inumeráveis e inesperadas as fontes de Borges. E mais:
Borges leu tudo, e especialmente o que ninguém lê mais: os cabalistas, os gregos alexandrinos, os filósofos da Idade Média. Sua erudição não é profunda; ele não lhe pede senão clarões e idéias; mas é vasta. Um exemplo: Pascal escreveu: A natureza é uma esfera infinita em que o centro está em toda parte, a circunferência em nenhuma. Borges parte à caça dessa metáfora através dos séculos. Acha em Giordano Bruno (1584): Podemos afirmar com certeza que o universo é todo centro, ou que o centro do universo está em toda parte e sua circunferência em nenhuma parte. Mas Giordano Bruno podia ter lido num teólogo francês do século XII, Alain de Lille, uma fórmula extraída do Corpus Hermeticum (século III): Deus é uma esfera inteligível cujo centro está em toda parte a circunferência em nenhuma parte. Tais pesquisas, levadas a efeito entre os chineses como entre os árabes ou os egípcios, encantam Borges e lhe oferecem seguidos assuntos de contos”.
Muitos dos mestres dos quais Borges sofreu alguma influência em são ingleses. Nutre profunda admiração por Wells, que escreveu um romance que representa simbolicamente traços inerentes a todos os destinos humanos. Diz, André Maurois:
. Cada obra grande e duradoura deve ser ambígua, diz Borges, pois é um espelho que faz conhecer os traços do leitor, embora o autor deva parecer ignorar o significado da sua obra – o que constitui uma descrição excelente da arte do próprio Borges. E é Borges quem diz: Deus não deve fazer teologia; o escritor não deve anular com raciocínios humanos a fé que a arte exige de nós.
Borges, como a Wells admira Poe e Chesterton, prossegue André Maurois:
Poe escreveu contos perfeitos de horror fantástico e inventou a narração policial, mas nunca combinou os dois gêneros. Se Chesterton soube se defender de Poe ou Kafka havia na matéria de que seu eu estava feito algo que tendia ao pesadelo. Kafka, a seu turno é um precursor direto de Borges. Castelo podia pertencer a Borges, embora esse dele tivesse feito um conto de dez páginas, tanto por altaneira preguiça quanto pelo cuidado da perfeição”. Quando aos precursores de Kafka, a erudição de Borges – ressalta Maurois - se compraz em achá-los em Zenão de Eléia, em Kierkegaard, em Robert Browning. “Em cada um desses autores há algo de Kafka, mas se esse não tivesse escrito, ninguém se aperceberia disso. De onde este paradoxo bem borgesiano? Cada escritor cria seus precursores.
André Maurois faz referência a ao inglês Dunne como sendo outro dos escritores que inspiraram Borges:
Donne escreveu um curioso livro sobre o Tempo, onde sustenta que o passado, o presente e o futuro existem simultaneamente, como o provam nossos sonhos, (Schopenhauer, nota Borges, já escreveu que a vida e os sonhos são páginas dum mesmo livro: lê-las em ordem é viver, folheá-las é sonhar. Na morte reencontraremos todos os instantes de nossa vida e os combinaremos livremente como num sonho. Deus, nossos amigos e Shakespeare colaborarão conosco. Nada mais agrada a Borges que jogar assim com o espírito, o sonho, o espaço e o tempo.
È mais extenso esse ensaio de André Maurois sobre a obra de Jorge Luis Borges. Do ensaio, recolhi as partes mais interessantes, acredito. Mas, antes do ponto final, acho importante abordar a forma de Borges, que segundo Maurois lembra a de Swift:
A mesma gravidade no absurdo, a mesma precisão no detalhe. Para expor uma descoberta impossível, empregará o tom do erudito minucioso e pedante, mesclará escritos imaginários com fontes autorizadas e reais. Antes do que escrever um livro inteiro, o que o entediaria, analisa um livro que nunca existiu. “Porque desenvolver em quinhentas - páginas, pergunta Borges -, uma ideia cuja perfeita exposição oral demoraria alguns minutos?”
André Maurois agora dá realce a outros contos de Jorge Luis Borges, dizendo:
São parábolas misteriosas e nunca explícitas; outros ainda, relatos policiais à maneira de Chesterton. A trama persiste toda intelectual. O criminoso emprega o seu conhecimento de detetive. É Dupin contra Dupin, ou Maigret contra Maigret . Uma das 'ficções' de Borges é a insaciável procura dum ser através dos reflexos, apenas perceptíveis, que deixou em outras pessoas. Ou então, por ter o condenado notado que as previsões nunca coincidem com as realidades, imagina as circunstâncias da sua morte. Transformadas assim em previsões, deixarão de ser realidades.
Maurois diz, no que respeita às invenções de Borges, que essas invenções de Borges são mais extraordinárias que as de Poe, escritas num estilo hábil e puro que aliás cumpre relacionar com o de Poe, “que gerou Budelaire, que gerou Mallarmé, que gerou Valéry, que gerou Borges".
Já no final do seu ensaio, Maurois lembra do parentesco do estilo de Borges com o de Valéry, pelo rigor; às vezes, com Flaubert, pelo acúmulo de passados imperfeitos; com Saint-John Perse, pela estranheza de adjetivos. Mas, não deixa de ressalvar que é altamente original o estilo de Borges, o mesmo ocorrendo com seu pensamento. Termina o ensaio com o que diz Borges sobre os metafísicos de Tlön: “Não buscam a verdade, nem mesmo a verossimilhança. Pensam que a metafísica é um ramo da literatura fantástica”. O que define bem a grandeza e a arte de Borges – conclui Maurois.



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